Ler o artigo Acessar menu principal

Redes Sociais:

RSS:

Rádio Vaticano

A voz do Papa e da Igreja em diálogo com o mundo

outras línguas:

Igreja \ Igreja no Brasil

Ecumenismo não é pacote de concessão, mas ambiente de comunhão

Papa Francisco saúda Bartolomeu I no Encontro das Religiões pela Paz, em setembro de 2016 - AP

07/07/2017 08:30

Cidade do Vaticano (RV) - O diálogo ecumênico e inter-religioso não é uma novidade trazida pelo Papa Francisco, mas no seio da Igreja Católica ganhou ímpeto a partir do Concílio Vaticano II.

Bergoglio dá continuidade a um trabalho que já era realizado pelos seus predecessores, apenas dando uma ênfase especial na necessidade de trabalhar juntos, rezar juntos, para enfrentar as emergências existentes no mundo de hoje. Assim em Francisco, encontramos expressões como "ecumenismo espiritual" e "ecumenismo de sangue", esta última relativa às perseguições que os cristãos sofrem por serem cristãos, independente da denominação de pertença.

No campo ecumênico, o ano de 2016 foi muito rico, marcado por encontros históricos, como aquele realizado em fevereiro em Havana com o Patriarca Kirill, da Igreja Ortodoxa russa, ou em Lund, na Suécia, em 31 de outubro, com a Igreja Luterana, ou ainda a celebração das Vésperas com os anglicanos em Roma, que marcaram os 50 anos de diálogo entre as duas Confissões. Nas três ocasiões, foram assinadas Declarações Comuns, onde foi reiterado o empenho no trabalho rumo à unidade.

Ecumenismo é diálogo, entre as religiões cristãs. Muitas vezes o termo é mal-entendido, pensado como uma negociação de valores, de verdades, ou mesmo um acordo ou pacto para se chegar a um "estado de paz".  Neste sentido, em diversas oportunidade o Papa Francisco reitera que uma condição fundamental para o diálogo, no caso religioso, é que cada um tenha sua fé bem firme e esclarecida.

O Padre Douglas Pinheiro Lima, Pároco na Igreja Nossa Senhora de Fátima, em Jandira (SP), Professor de Teologia Sistemática na Universidade Salesiana de São Paulo e Assessor para o Ecumenismo na Diocese de Osasco, nos fala sobre isto:

"O ecumenismo não é um pacote de concessão, é um ambiente de comunhão. Quando o movimento ecumênico começou, em 1910, em Edimburgo, nós temos como marco do primeiro esforço do século XX de algum diálogo inter-denominacional.

Neste começo a Igreja Católica não fazia parte, nem as Igrejas Ortodoxas, mas se pretendeu ali, justamente isto: um encontro das Igrejas de maneira que cada uma procurasse quais concessões poderia fazer, para que quem sabe, eles pudessem se tornar uma única Igreja.

O Papa Pio XI em 1928 escreveu uma Encíclia chamada Mortalium Animos, condenando este tipo de ecumenismo, que ele próprio chamou de irenismo. A palavra eirene (ειρήνη), em grego, que significa paz, seria um pacifismo. Em nome da paz nós abrimos mão de verdade, abrimos mão de identidade. Na verdade isto é impraticável. Todos nós devemos respeito e tributo à comunidade que nos transmitiu a fé e nós não podemos simplesmente trair o lugar de onde viemos, o ambiente que nos gerou. E o próprio movimento de Edimburgo percebeu que isto não daria certo. Mais prá frente, em 48, foi criado o Conselho Mundial de Igrejas, que é fruto deste movimento, mas este movimento de Edimburgo errou muito até chegar a esta visão.

Então nós temos um Magistério de 1928 que condena o ecumenismo - usando esta palavra - mas naquele período o que se entendia por ecumenismo era  esta tentativa irenista, que inclusive foi condenada novamente pelo Vaticano II, no parágrafo 11 do Decreto Unitatis Redintegratio - que é o documento oficial do Vaticano II para o ecumenismo. No número 11, o Papa Paulo VI com os Padres do Concílio deixou clara, que  aquela posição em relação ao irenismo continua, porque nós não vamos chegar a lugar nenhum traindo a nossa identidade.

Mais adiante, o Cardeal Suenens, quando escreve para a Renovação Carismática - quando o movimento já havia começado na nossa Igreja - ele diz uma frase que inclusive consta em diversas diretrizes do movimento em vários países: "só tem medo de ser ecumênico, que tem medo de deixar de ser católico". Ele diz esta frase. Ou seja, nós estamos tão seguros de nós, enquanto identidade, que não somente posso me permitir, como desejo me encontrar com os irmãos, e posso orar com eles, dialogar com eles, sentar à mesa com eles, inclusive realizar uma série de eventos, sem que em momento algum isto soe como um risco, como um perigo para a minha fé".

07/07/2017 08:30