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Editorial: Corrupção, coração partido

Dinheiro

24/06/2017 08:00

Cidade do Vaticano (RV) – Nos dias passados foi lançado aqui em Roma (dia 15/06) o livro-entrevista do Prefeito do Dicastério para o Desenvolvimento Humano Integral, Cardeal Peter Turkson, e Vittorio V. Alberti, com o prefácio do Papa Francisco, intitulado “Corrosão”. Aproveitando o momento que vivemos no Brasil e onde a corrupção é uma palavra que entrou no léxico de todo brasileiro gostaríamos de recordar algumas considerações de Francisco que podem nos ajudar a conhecer e enfrentar essa chaga da sociedade moderna.

No prefácio do livro do Cardeal Turkson, Bergoglio afirma que “a corrupção, na sua raiz etimológica, define uma dilaceração, uma ruptura, decomposição e desintegração” A corrupção revela uma conduta antissocial tão forte que dissolve as relações e os pilares sobre os quais se fundam uma sociedade: a coexistência entre as pessoas e a vocação a desenvolvê-la.

“Coração partido”. É isso o que recorda a palavra “corrupto”. “Um coração fragmentado, manchado por alguma coisa”, “estragado” como um corpo decomposto.

O discurso do Papa se acende e se aguça quando se trata de decompor o fenômeno da corrupção em suas metástases que atingem, diz ele, o “interior” da pessoa, junto com o “fato social”. O ponto de partida para Francisco são as “três relações” que caracterizam a vida humana: a relação com Deus, com o próximo, e com o meio ambiente.

Quando o homem é “honesto” vive essas relações de forma responsável em prol do “bem comum”. Em vez disso, o homem que se deixa corromper “sofre uma queda” e a “conduta antissocial” que a corrupção induz acaba por “dissolver a validade das relações”. Rompem-se os pilares da convivência entre as pessoas, o interesse particular é como um veneno que “contamina todas as perspectivas”.

A corrupção cheira mal, disse certa vez o Papa. E esse conceito Francisco retoma no prefácio do livro. O “corrupto” é em síntese alguém “que emana o ‘mau cheiro’ de um coração decomposto, que está na origem da exploração, da degradação, da injustiça social e da ‘mortificação do mérito’, da ausência dos serviços às pessoas”. A “raiz” da escravidão.

A corrupção, repete com força Francisco, é “uma forma de blasfêmia”, é a arma, a linguagem mais comum também da máfia um “processo de morte que dá linfa à cultura de morte”, de quem tece o crime. E hoje, para muitos, só “imaginar o futuro” é extremamente difícil, pois a corrupção chega a minar a “esperança”, a esperança de que algo melhor é possível, a esperança da juventude que sonha com um horizonte diferente, de luz e não de escuridão.

Francisco, apreciando a análise conduzida pelo Cardeal Turkson sobre o fenômeno, adverte também a Igreja para a sua forma mais perigosa de corrupção, o “mundanismo espiritual”, a “apatia, a hipocrisia, o triunfalismo”, o “sentimento de indiferença”. Existe uma profunda questão cultural que deve ser enfrentada. Todos estamos expostos à tentação da corrupção.

A corrupção tem na origem o cansaço da transcendência, como a indiferença. Por isso, o corrupto não pede perdão, disse Francisco. A Igreja deve ouvir, elevar-se e inclinar-se sobre a dor e sofrimento das pessoas segundo a misericórdia e deve fazer isso sem ter medo de purificar-se, buscando sempre o caminho para se melhorar. Segundo o teólogo francês Henri de Lubac: “O maior perigo para a Igreja é a mundanidade espiritual, portanto, a corrupção, que é mais desastrosa que a lepra infame.”

Segundo o Pontífice, o antídoto contra a corrupção é a "beleza", que “não é um acessório cosmético, mas algo que coloca no centro a pessoa humana para que ela possa levantar a cabeça contra todas as injustiças. Essa beleza deve casar-se com a justiça”.

Devemos trabalhar todos juntos, cristãos e não cristãos, pessoas de todos os credos e ateus para combater esta forma de blasfêmia, este câncer que mata as nossas vidas e cancela o futuro das novas gerações. (Silvonei José) 

24/06/2017 08:00