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Bispo de Aleppo: há muitos interesses na guerra na Síria

Tanque destruído na regiãode Kobani, região curda na região de Aleppo - EPA

10/04/2017 18:31

Damasco (RV) - Os Estados Unidos preparam-se para adotar novas sanções contra o regime de Bashar al-Assad e estão prontos a realizar novos ataques, "se necessário". Com o lançamento de 59 mísseis Tomahawk contra a base aérea síria Khan Shaykun - de onde decolaram os aviões que teriam usado armas químicas contra a população na Província de Idlib - a Casa Branca lançou uma dura advertência a Damasco. Nos Estados Unidos, no entanto, há manifestações contrárias à decisão do Presidente Trump.

A Rússia condenou o ataque estadunidense e enviou uma navio de guerra para a região. Os Estados Unidos - afirma Moscou - atacaram quem está combatendo os integralistas do Estado Islâmico. A União Europeia e Israel alinharam-se com Trump. Apoio também da Arábia Saudita e Turquia, que querem a queda de Assad.

Já para o Irã, o ataque dos Estados Unidos é perigoso, destrutivo, viola os princípios da lei internacional, fortalece os terroristas e complica ulteriormente a situação na Síria.

Alguns analistas afirmam, que o recado não foi só para Assad, mas também para a Coréia do Norte e o Irã.

O Substituto da Secretaria de Estado, Dom Angelo Becciu, em entrevista ao canal TG2000 expressou a preocupação da Santa Sé: "Estamos atônitos" com os acontecimentos na Síria, quer pelo ataque químico contra a população indefesa", quer pelos desdobramentos que poderá ter, com "contra-ataques sucessivos".

Sobre a situação no país, após a intervenção dos EUA, eis o que afirmou aos microfones da Rádio Vaticano o Bispo caldeu de Aleppo e Presidente da Caritas Síria, Dom Antoine Audo:

"Foi realmente uma surpresa para todos. É uma coisa nova: parece uma mudança na política militar em nível internacional... e não se sabe para onde iremos. Aqui na Síria, as pessoas se perguntam - não é o meu pensamento - se esta história das armas químicas não foi uma preparação para esta intervenção, para preparar a opinião internacional. Dizem isto".

RV: Qual é o sentimento da população?

"Aqueles que estão com os grupos armados, geralmente estão contentes em ver esta destruição do Estado sírio: e são muitos. Os outros, pelo contrário, esperam para ver o que acontecerá: existe um projeto de divisão da Síria. Tudo isto prepara o modelo do Iraque, que é sempre uma referência para nós. Pensávamos que as coisas ocorridas no Iraque não poderiam acontecer na Síria, mas agora estamos vendo isto".

RV: De fato, o governo sírio retomou o controle de boa parte do país...

"Sim, parece que tenha retomado o controle da linha que vai de Damasco até Aleppo. As cidades mais importantes são Damasco, Aleppo, Homs, Hama e as cidades que se encontram no litoral, geralmente. Mas os ataques continuam: a cada pouco há bombardeios sobre Damasco, sobre bairros de Aleppo, de Homs. Não acabou".

RV: Dom Audo, por que a comunidade internacional está tão concentrada sobre a Síria?

"Penso que existam interesses em nível internacional. E penso que se trate de interesses de natureza sobretudo econômica, que giram ao redor de toda a questão do gás e do petróleo. E depois penso que em nível islâmico, do Oriente Médio, toda esta luta entre xiitas e sunitas seja usada para manter em andamento estas guerras e levar em frente o comércio de armas. Em nível interno, a fragilidade da Síria consiste também no usar o desequilíbrio entre minorias e maiorias. Penso que este seja o problema.

RV: Como a comunidade de Aleppo se prepara para viver a Semana Santa?

"São momento importantes. Fiquei muito surpreso na noite de sexta-feira. Na Catedral, a cada sexta-feira, fazemos a Via Sacra após a Eucaristia. E a igreja está mais cheia do que o normal! Isto costuma acontecer depois dos bombardeios e nesta situação de inquietude e de medo. As pessoas vêm de novo para a igreja: a fé é algo extraordinário! É a única coisa que permanece, porque não temos meios políticos, nem econômicos. Fazemos todo o possível para assegurar esta presença cristã. Tudo o que fazemos como bispos, como sacerdotes e como cristãos, o fazemos para permanecer presentes aqui e para dar testemunho de nossa fé. Não temos nenhum interesse. Todos têm interesses nesta guerra na Síria, em nível internacional, regional e local. Nós cristãos da Síria somos os primeiros a perder tudo". (SC/LC/JE)

 

10/04/2017 18:31