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Piquiá de Baixo: como começou a mobilização

1.100 pessoas respiram a contaminação das siderúrgicas - RV

09/03/2017 06:00

Cidade do Vaticano (RV) - Existe uma comunidade na cidade de Açailândia, no Maranhão, chamada Piquiá de Baixo. Há mais de 25 anos, seus os moradores são vítimas de doenças respiratórias, nos olhos e na pele, contraem câncer e sofrem diversos tipos de incidentes. Ao lado de suas casas, na década de 80, começaram a se instalar indústrias siderúrgicas. As atividades destas empresas não respeitam os requisitos de cuidado com a saúde e a segurança.

O caso é apresentado na Europa

No último dia 27 de fevereiro, o caso foi levado às Nações Unidas, em Genebra, por Joselma Alves de Oliveira, moradora de Piquiá, membros da Federação Internacional dos Direitos Humanos (FIDH) e pelo missionário comboniano Pe. Dário Bossi, membro da rede Igrejas e Mineração, grande apoiador da comunidade nesta luta.

A delegação prosseguiu sua viagem na Europa com dois encontros importantes: em Milão, discutiram as consequências da produção de ferro-gusa sobre a saúde com o Instituto dos Tumores, que possivelmente vai incluir o estudo sobre a saúde dos moradores do bairro em uma publicação. Joselma e Pe. Dario também estiveram com o Card. Peter Turkson, Presidente do Dicastério para o Desenvolvimento Humano Integral do Vaticano, falando sobre a necessidade de apoio a todas as comunidades que sofrem os violentos impactos da mineração na América Latina.

Naquela ocasião, a RV conversou com eles. Ouça aqui:

“Desde 1960 já tinham as primeiras famílias...mas sempre em primeiro lugar vem o financeiro, geralmente os governos se preocupam mais com lucros do que com vidas, as pessoas. A comunidade então entrou em consenso, para nós aquilo se tornou inviável. E aí aquela estória: ‘os incomodados que se mudem’. Hoje em dia não temos mais qualidade de vida e mesmo com estes empreendimentos dentro do nosso bairro, a comunidade é extremamente pobre e desassistida, sem saneamento básico... Vimos a necessidade de lutar, de se organizar para poder sair desta localidade”.

“É um processo lento e difícil, já temos mais de 8 anos lutando só pelo processo do reassentamento. É muito tempo para esta comunidade que está sendo agredida diariamente com os impactos ambientais que ocorrem todos os dias: níveis de poluição super elevados, emissão de gases, particulados... É um processo difícil, que requer a mobilização para conseguirmos este objetivo”.

“O que fica para a comunidade são os trabalhos pesados, os braçais, os mais severos, os mais difíceis. Quando chegam às comunidades, vêm com uma história de que vão melhorar a qualidade de vida, o trabalho, que vai ter uma porcentagem de trabalho para a comunidade, mas na verdade isto não acontece. Iludem também os jovens dizendo que vão capacitar, mas na verdade isso não acontece. O que fica para a comunidade de Piquiá de Baixo são os impactos ambientais, as doenças.. é muito desgastante para a comunidade viver desta forma... então, a nossa opção é lutar”.

“A gente nunca conseguiu nada assim porque alguém falou: pega, isso aqui vai ajudar vocês. Tudo foi com mobilização e luta. Nada fácil. Eu gosto de falar assim. ‘No dia em que eu chegar lá na casa, no novo bairro, para mim vai ter um significado diferente, porque eu sei o tamanho da luta que foi para conseguir o tamanho da rua, o tamanho da casa, a infraestrutura, tudo... tem um sabor diferente. Na minha sala, quando eu sentar e olhar, vou pensar: este teto me custou caro, tive que correr muito’”.

(CM)

09/03/2017 06:00