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Especiais \ Memória Histórica

A valorização da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade no pós-Concílio

"Com o Concílio de Constantinopla, ficou implicitamente estabelecido que o Espírito Santo deve ser do mesmo ser (ousia) que o Pai e o Filho" - REUTERS

01/02/2017 09:30

Cidade do Vaticano (RV) - No nosso espaço Memória Histórica - 50 anos do Concílio Vaticano II, vamos continuar a falar sobre as aplicações práticas e teologais do Concílio, sugeridas pelas pregações de Advento do Frei Raniero Cantalamessa.

No programa passado, recordamos as afirmações do Pregador da Casa Pontifícia no Advento, que dizia que a maior novidade do pós-Concílio, na teologia e na vida da Igreja, era o Espírito Santo. Não que o Concílio houvesse ignorado sua ação na Igreja, mas de alguma forma não havia dado destaque ao seu papel central. O "novo Pentecostes para a Igreja" desejado por João XXIII para o Concílio, começou a acontecer mais tarde, após a sua conclusão.

Nos últimos anos - disse Cantalamessa na sua pregação  de Advento - temos observado passos decididos na direção da valorização da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade. Padre Gerson Schmidt:

“O pregador da Casa Pontifícia, Raniero Cantalamessa, tem refletido nas pregações do Advento passado sobre o cinquentenário do concílio e suas aplicações práticas e teologais para a Igreja atual, o que nos interessa aqui de modo muito particular.

O Frade e Padre Cantalamessa diz que depois do concílio se multiplicaram os tratados sobre o Espírito Santo: dentre os católicos, está o do próprio Congar[1], de K. Rahner[2], de H. Mühlen[3] e de von Balthasar[4], dentre os luteranos o de J. Moltmann[5] e M. Welker[6], e de muitos outros. O tratado de Mühlen, por exemplo, tem como título, Der Heilige Geist als Person. Ich - Du - Wir, é significativo como título – O Espírito Santo como pessoa – eu, tu, nós. Ou seja, esse título dá a ideia não estática, mas de comunhão dinâmica do Espírito Santo com a Trindade.

Da parte do Magistério houve a Encíclica de São João Paulo II Dominum et vivificantem, publicada em 1986. Por ocasião do XVI centenário do Concílio de Constantinopla, do 381, o próprio Sumo Pontífice, em 1982, promoveu um congresso internacional de Pneumatologia no Vaticano, cujas atas foram publicadas pela Livraria Editora Vaticana, em dois grandes volumes intitulados "Credo in Spiritum Sanctum[7]”.

Lembramos aqui que o  Primeiro Concílio de Constantinopla foi debatida a natureza de Cristo e contra o arianismo, heresia no inicio da Igreja que negava a dupla natureza de Cristo. O Arianismo, como uma doutrina religiosa, defendia a ideia de que Jesus Cristo não era um ser divino, mas sim apenas filho de Deus. O Concílio de Constantinopla aprovou o Credo niceno-constantinopolitano. Expandiu-se a menção do Espírito Santo no Credo, declarando-se que o Espírito Santo "é o Senhor, o Doador da vida que procede do Pai, com o Pai e o Filho é adorado e glorificado". Com isso ficou implicitamente estabelecido que o Espírito Santo deve ser do mesmo ser (ousia) que o Pai e o Filho. Esta decisão do Concílio sobre o Espírito Santo também deu apoio oficial para o conceito da Trindade.

Ainda na primeira pregação do Advento desse ano último, Cantalamessa disse que nos últimos anos estamos observando passos decididos na direção de valorização da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, que muitas vezes foi esquecido ou não reconhecido no seu papel principal na ação da Igreja. No fim de sua carreira, Karl Barth fez uma declaração provocativa que foi, em parte, também uma autocrítica. Disse que no futuro iria desenvolver uma teologia diferente, a “teologia do terceiro artigo”.

Por “terceiro artigo” entendia, naturalmente, o artigo do credo sobre o Espírito Santo. A sugestão não caiu no vazio. Desde que foi lançada a proposta surgiu a atual corrente denominada, precisamente, "Teologia do terceiro artigo". Tal corrente não quer tomar o lugar da teologia tradicional (seria um erro se pretendesse), mas sim estar do lado e reavivá-la. Ela se propõe a fazer do Espírito Santo não somente o objeto do tratado que lhe diz respeito, a Pneumatologia (Pneumato=espírito; logia=estudo), mas por assim dizer a atmosfera na qual se desenvolve toda a vida da Igreja e toda pesquisa teológica, "a luz dos dogmas", como um antigo Padre da Igreja definia o Espírito Santo.

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[1] Y. Congar, Credo nello Spirito Santo, 2,  Brescia 1982, pp. 157-224.

[2] K. Rahner, Erfahrung des Geistes. Meditation auf Pfingsten, Herder, Friburgo  i. Br. 1977.

[3] H. Mühlen , Der Heilige Geist als Person. Ich - Du - Wir, Münster in W., 1963.

[4] U. von Balthasar, Spiritus Creator, Brescia 1972, p. 109.

[5] J. Moltmann, Lo Spirito della vita, , Brescia 1994, pp. 102-108

[6] M. Welker, Lo Spirito di Dio. Teologia dello Spirito Santo, Brescia 1995, p.62.

[7] Editi da Libreria Editrice Vaticana nel 1983.

01/02/2017 09:30