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Voluntariado na África: a experiência de um jovem médico italiano

Criança em hospital africano - AFP

23/01/2017 08:08

Cidade do Vaticano (RV) – “Os doentes não têm religião”. A afirmação é do médico cirurgião italiano Salvatore Guarino que, após três voluntariados no Djibuti, diz ter “operado mais em 6 meses ali do que em 6 anos na Itália”.

“Operativamente falando, para mim era um carrossel. Fazia 10 intervenções por dia”, disse.

O Djibuti é um ponto nevrálgico para as estratégias políticas e econômicas do Ocidente. Posicionado na entrada do Mar Vermelho, é um centro de combate ao terrorismo. Última colônia francesa a obter a independência, ainda hoje abriga uma base da França e, mais recentemente, dos EUA. Apesar da presença ocidental, mais de 95% da população é muçulmana e a presença dos extremistas islâmicos do Al Shabaab é uma ameaça latente. 

Neste contexto de ausência ou inexistência de estruturas sanitárias, aos 35 anos Salvatore pode dizer ter vivido na pele as dificuldades de um dos países mais pobres da África na realidade do único hospital italiano no país do Chifre da África.

“Diante da doença, diante do cirurgião, aliás, aprecia ainda mais o cirurgião cristão a quem não importa se o doente é muçulmano, hindu ou judeu, mas vai lá para curar, operar, sem distinções. Eles são ainda mais gratos. Dizem: como é possível que tu venhas da Europa, branco e cristão, e estás aqui me operando, eu que sou negro, africano, muçulmano e faz tudo isso sem tampouco ser retribuído. Eles, então, constroem um mito em torno da figura do médico que te transforma em algo similar a um dos seus deuses”, explicou.

Mesmo tendo ficado 20 dias sem tomar um banho “de verdade”, Salvatore diz que gostaria de fazer um novo voluntariado na África e incentiva jovens médicos a viverem tal experiência. Contudo, alerta para o momento em que utopia de um trabalho voluntário na África se dissolve diante da cruel realidade.

“Há momentos em que percebes que és impotente diante de certas coisas. Por exemplo: havia duas crianças que morreram sem sequer serem operadas por um quadro médico estúpido. Um quadro que na Europa seria tratado com uma dose de antibiótico. Mas lá não tinha esse antibiótico e as crianças morreram. E esta é uma frustração. Pensas: não há médicos para operar, não há sala operatória, ok. Mas não tem o antibiótico e a criança morreu por decorrência de perfuração de tifo, algo que na Europa não aconteceria jamais. É uma sensação de impotência que te destrói”.

- Voltarias?

Sim, voltaria. Voltarei!

23/01/2017 08:08