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Artigo: Os 65 anos de sacerdócio de Bento XVI

O Senhor me chama para "subir a montanha", a dedicar-me ainda mais à oração e à meditação. Mas isto não significa abandonar a Igreja..." - ANSA

29/06/2016 03:30

Juiz de Fora (RV) - O Papa Francisco quis sublinhar, de maneira indelével e solene, a efeméride dos 65 anos de ordenação sacerdotal de Sua Santidade, o Papa Emérito Bento XVI e de seu irmão Georg. As comemorações, na Sala Clementina, no Palácio Apostólico, se sucederão na manhã do dia 28 de junho de 2016, com a presença do Colégio Cardinalício e de tantos colaboradores da Cúria Romana, em ação de graças pelos muitos benefícios que o ministério sacerdotal de Joseph Ratzinger constituíram-se em favor do crescimento do Reino de Deus, do ensino atualizado da Sagrada Teologia e da sua teologia da continuidade do Concílio Ecumênico Vaticano II, além de sua excepcional produção intelectual e de seus documentos pontifícios que iluminam a nossa fé de maneira cristalina.

Diria que o grande Bento XVI, poderia ser chamado de o papa magno do ensino teológico, e do vivo testemunho de humildade. Enquanto os homens deste mundo procuram o poder humano e até o poder de regime eclesiástico, mesmo lúcido, o Papa Bento XVI abriu espaço para que a figura canônica do Papa Emérito fosse instituída, de maneira perene, na tradição da Igreja, como a do Bispo Emérito, que só passou a ser uma realidade palpável, com o advento do Código de Direito Canônico de 1983, quando São João Paulo II assim dispôs: “O Bispo diocesano que tiver completado setenta e cinco anos de idade é solicitado a apresentar a renúncia do ofício ao Sumo Pontífice, que, ponderando todas as circunstâncias, tomará providências”(Cf. Cânon 401, parágrafo 1º).

O Papa Bento XVI, lucidamente e livremente, no pleno exercício de seu frutuoso ministério de Sucessor de Pedro, foi o primeiro a inaugurar, o que prevê o Código de Direito Canônico: “Se acontecer que o Romano Pontífice renuncie a seu múnus, para a validade se requerer que a renúncia seja livremente feita e devidamente manifestada, mas não que seja aceita por alguém”(Cf. Cânon 332, parágrafo 2º). Lembro-me, ainda hoje, daquela manhã de carnaval de 11 de fevereiro de 2013, em que o Papa Bento XVI, de maneira consciente, assim se dirigiu ao Sacro Colégio Cardinalício e a todo o orbe cristão: “Convoquei-vos para este Consistório não só por causa das três canonizações, mas também para vos comunicar uma decisão de grande importância para a vida da Igreja. Depois de ter examinado repetidamente a minha consciência diante de Deus, cheguei à certeza de que as minhas forças, devido à idade avançada, já não são idôneas para exercer adequadamente o ministério petrino. Estou bem consciente de que este ministério, pela sua essência espiritual, deve ser cumprido não só com as obras e com as palavras, mas também e igualmente sofrendo e rezando. Todavia, no mundo de hoje, sujeito a rápidas mudanças e agitado por questões de grande relevância para a vida da fé, para governar a barca de São Pedro e anunciar o Evangelho, é necessário também o vigor quer do corpo quer do espírito; vigor este, que, nos últimos meses, foi diminuindo de tal modo em mim que tenho de reconhecer a minha incapacidade para administrar bem o ministério que me foi confiado. Por isso, bem consciente da gravidade deste ato, com plena liberdade, declaro que renuncio ao ministério de Bispo de Roma, Sucessor de São Pedro, que me foi confiado pela mão dos Cardeais em 19 de Abril de 2005, pelo que, a partir de 28 de Fevereiro de 2013, às 20,00 horas, a sede de Roma, a sede de São Pedro, ficará vacante e deverá ser convocado, por aqueles a quem tal compete, o Conclave para a eleição do novo Sumo Pontífice. Caríssimos Irmãos, verdadeiramente de coração vos agradeço por todo o amor e a fadiga com que carregastes comigo o peso do meu ministério, e peço perdão por todos os meus defeitos. Agora confiemos a Santa Igreja à solicitude do seu Pastor Supremo, Nosso Senhor Jesus Cristo, e peçamos a Maria, sua Mãe Santíssima, que assista, com a sua bondade materna, os Padres Cardeais na eleição do novo Sumo Pontífice. Pelo que me diz respeito, nomeadamente no futuro, quero servir de todo o coração, com uma vida consagrada à oração, a Santa Igreja de Deus”.

A graça de Deus conduziu o Papa emérito Bento XVI para a vida contemplativa, de oração em favor da Igreja e de seu sucessor, a quem devota profunda reverência e espírito de obediência, afastando qualquer equívoco em que há dois Papas. Bento XVI, dedicando-se à oração, ao estudo, dá um testemunho explendido de sua consciência de que como Bispo emérito, a sua principal missão, é testemunhar a verdade contra todos os ventos contrários que muitas vezes querem bater sobre a Mãe Igreja.

Fidelidade, antes de tudo à Deus e à Sagrada Escritura, o Papa Bento XVI segue a sua vida nos apontando para o Cristo Sumo e Eterno Pastor. Bento XVI espiritualmente forte, pois somente um homem forte e corajoso seria capaz de um gesto tão exigente e impactante de renunciar ao Primado de Pedro, assumiu tal decisão, serenamente, de modo consciente e livre, “diante de Deus”, pelo bem da Igreja, pois reconheceu que suas forças “já não são idôneas para exercer adequadamente o ministério petrino”. Num mundo marcado pela idolatria do poder, dentro e fora da Igreja, de busca desenfreada de aparecer na mídia e de mandar por mandar, a renúncia e a vida contemplativa e orante de Bento XVI adquire especial sentido profético, interpelando aos que se apegam ao poder. O seu gesto é portador de valores; faz pensar sobre o sentido do poder como serviço, sobre a perenidade de valores éticos e espirituais fundamentais para a humanidade, em meio à provisoriedade deste mundo.

Mais hoje queremos falar do ministério presbiteral de Bento XVI. Diariamente, com a ajuda de seu secretário e das consagradas que o assistem, inicia o seu dia com a Santa Missa no Mosteiro Mater Ecclesia. Homem contemplativo passa o dia dedicado à oração e a gastar a sua vida pela Igreja. Imolou-se ao mundo para viver, já aqui na terra, as consolações do céu. Seu sorriso, seu olhar penetrante, sua delicadeza impar e o seu gesto, particularmente comigo, de me escrever pessoalmente que, já naquele momento bispo emérito, eu não estava fora da Igreja, por ter vencido por limite de idade meu período de Bispo Diocesano, mais continuava Bispo da Igreja, como todos os bispos, com as mesmas responsabilidades diárias de testemunhar o Ressuscitado e de anunciar, oportuna e inoportunamente, o Evangelho me levam a dar graças a Deus pela vida e pelo ministério deste grande homem, Bento XVI, doutor magno da teologia e pai do desprendimento moderno. Deus conserve Bento XVI e lhe dê longos anos de vida e saúde. Abençoe-nos, querido e sábio homem de fé, patriarca da Igreja.

Será lançado, no dia 28 de junho, um livro que retrata a vida e o ministério presbiteral do Papa Ratzinger, que tem prefácio do Papa Francisco que usa uma expressão de Hans Urs von Balthasar - "Teologia de joelhos" - para elogiar o testemunho exemplar do predecessor: "Antes mesmo de ser um grandíssimo teólogo e mestre da fé, vê-se que é um homem que realmente acredita, que realmente reza; vê-se que é um homem que personifica a santidade, um homem de paz, um homem de Deus". O Papa Francisco se refere quando escreve que "talvez seja precisamente hoje, como Papa emérito", que Bento XVI "nos conceda em modo mais evidente uma entre as suas maiores lições de "teologia de joelhos". Renunciando "ao exercício ativo do ministério petrino", Bento XVI decidiu "dedicar-se totalmente ao serviço da oração". E do Mosteiro Mater Ecclesiae - completa Francisco - mostra o essencial aos sacerdotes: não o ativismo do "fazer" mas "rezar pelos outros, sem interrupção, alma e corpo".

Celebrar a vida de Bento XVI é lançar um olhar sobre os bispos eméritos. Muitos deles passam por privações ou por dificuldades. Muitos são esquecidos ou mesmo perseguidos. Hoje se fala mais, com coragem, da missão que continua do Bispo Emérito. Por isso mesmo, entre os que estão tendo coragem de continuar sua missão, valeria a pena ler o livro “O êxodo de um Bispo Diocesano”. Esse livro ilumina a vida de todos os eméritos que tem muito a oferecer à Igreja e a testemunhar pela sua vida.  O Papa Bento XVI disse em seu último Angelus: "O Senhor me chama para "subir a montanha", a dedicar-me ainda mais à oração e à meditação. Mas isto não significa abandonar a Igreja...". Com Bento XVI repito suas palavras, rezando com ele, por ele e pela Igreja e testemunhando que nós, os bispos eméritos, não abandonamos a Igreja, mais ao contrário estamos mergulhados em Deus.

       + Eurico dos Santos Veloso

       Arcebispo Emérito de Juiz de Fora, MG.

29/06/2016 03:30