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A participação do episcopado brasileiro nas sessões do Concílio

O Concílio Vaticano II realizou-se de 1962 a 1965 e mudou os rumos da Igreja - ANSA

29/04/2015 08:00

Cidade do Vaticano (RV) - No nosso Espaço Memória Histórica - 50 anos do Concílio Vaticano II, vamos tratar na edição de hoje da participação do episcopado brasileiro na Sala conciliar.

O Concílio Vaticano II - aberto pelo Papa João XXIII em 11 de outubro de 1962 - teve quatro sessões, até sua conclusão em 8 de dezembro de 1965. João XXIII expressou em diversas ocasiões, o firme propósito de assegurar a mais ampla e irrestrita liberdade de expressão por parte dos padres conciliares, aos quais entregava o destino do Concílio, para que "o trabalho comum corresponda às esperanças e necessidades de vários povos". Diante do suceder de exposições individuais, muitas vezes repetindo temas já exaustivamente abordados por outros padres brasileiros, o episcopado brasileiro manifestou-se, pedindo para que fosse dada prioridade às intervenções coletivos em detrimento das individuais, salvaguardando o direito de os cardeais intervirem, por primeiro, em nome próprio ou de muitos.

No primeiro período, houve 20 intervenções orais dos padres brasileiros, das quais 2 coletivas. As escritas, por sua vez, foram 31, 8 das quais coletivas, perfazendo um total de 51 intervenções. O primeiro bispo brasileiro a se pronunciar foi o Bispo de Campina Grande, Dom Manoel Pereira da Costa, durante a III Congregação Geral, quando se discutia o texto da Mensagem ao Mundo, por parte do Concílio. A primeira intervenção coletiva no Concílio foi de Dom Clemente Isnard OSB, de Nova Friburgo, durante a VII Congregação Geral de 26 de outubro. Sua intervenção foi subscrita por outros 30 bispos brasileiros e abordava, entre outros, o tema da língua vulgar na liturgia. Na Congregação do dia seguinte, a VIII, nova intervenção coletiva, a segunda do Concílio, desta vez, do Bispo de Caxias, no Maranhão, Dom Luiz Gonzaga da Cunha Marelim. Ela foi subscrita por outros quatro bispos brasileiros.

Também dignas de atenção, são duas intervenções assinadas por Dom Helder Camara, que ao longo dos quatro anos nunca interveio na Aula Conciliar, valendo-se de outros caminhos para apresentar suas propostas. A primeira, capitaneada por Mons. C.M. Himmer, era dirigida ao Secretário de Estado, Amleto Cicognani, com um pedido de que fosse submetida à apreciação do Papa João XXIII. Era assinada por bispos da Igreja dos Pobres e pedia que o Concílio deslocasse seu olhar das questões internas da Igreja para os vastos problemas do mundo, que aguardava uma palavra da Igreja, citando os problemas do exercício da justiça e da caridade, tanto pessoal como social, em particular em relação aos povos em desenvolvimento; os problema da paz e da fraterna união de todos os povos; a evangelização dos pobres e dos afastados; as exigências de renovação evangélica nos pastores e fieis da Igreja. Por fim, solicitam a constituição de uma Comissão ou Secretariado especial que se ocupe destas questões, para definir o ministério da Igreja "ad extra". Esta petição está na raiz da formulação do célebre esquema XVII, mais tarde esquema XIII, sobre a Igreja no mundo de hoje e que deu origem à Constituição Pastoral Gaudium et Spes. No pós-Concílio, a sugestão de um Secretariado especial deu origem à Pontifícia Comissão Justiça e Paz.

A segunda intervenção, encabeçada pelo Arcebispo de Youndé, República dos Camarões, Dom Jean Baptiste Zoá, é assinada por Dom Helder Camara e por outros bispos que gravitavam em torno à Igreja dos Pobres, ao Ecumênico, à CNBB e ao CELAM. A petição ataca os problemas da agenda e do funcionamento da pesada e ineficiente máquina conciliar e pede que os Padres Conciliares tenham em mãos o elenco completo dos esquemas elaborados pelas Comissões preparatórias, acompanhadas de um índice dos seus capítulos; que seja conhecida a ordem dos esquemas a serem abordados na próxima sessão conciliar e que a importante constituição De Ecclesia fosse a primeira a ser discutida no início da próxima sessão.

As duas petições foram assinadas no dia 21 de novembro, data em que João XXIII interveio no curso do próprio Concílio, dando ouvidos ao voto da maioria que pedia que o esquema De fontibus revelationis fosse retirado da pauta do Concílio e inteiramente refundido.

Dom Helder Camara assinou muitas das intervenções coletivas do episcopado brasileiro ou latino-americano, inspiradas pelo Ecumênico ou pela Igreja dos Pobres, encaminhando por escrito suas observações ou fazendo chegar diretamente aos moderadores, à Secretaria de Estado ou ao próprio Papa, suas sugestões e propostas. Suas posições também chegaram ao Papa e à Aula Conciliar através da imprensa.

 

Fonte:  Padres Conciliares Brasileiros no Vaticano II: Participação e Prosopografia, 1959 – 1965. Pe. José Oscar Beozzo

 

29/04/2015 08:00